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RESUMO: O presente artigo é um corpo de pensamento que tem o intuito de ir desvendando, através de uma pesquisa teórica, os temas do corpo, da percepção, do tempo, do espaço, do movimento e do ato de criação. A vida cria, e nela estamos constantemente numa reinvenção de nós próprios e numa busca de aumentar as nossas potências de agir. É nesse viver que o corpo cria e avança no fluxo corrente de movimento. Através do resgate do seu sensível, do tempo e da abertura da sua percepção é que ele se torna um gerador de mudança. A pesquisa se desenvolve, seguindo uma linha evolutiva que interliga estes aspectos, recorrendo a conceitos desenvolvidos por pensadores como Bergson (2006), Deleuze (1999; 2008) e José Gil (2001). Formando assim um conjunto de reflexões que pretendem mostrar que quem habita um corpo está em constante movimento de criação.

PALAVRAS-CHAVE: Arte / Dança / Tempo / Mudança / Criação

CORPO NO MOVIMENTO DE CRIAÇÃO 

Esta pesquisa é um corpo de pensamento que evidencia como a vida nos pode levar além da percepção, além de nós mesmos e do nosso potencial criador, pois a vida continua constantemente a transformar a nossa noção de realidade, desenvolvendo-se sobre processos de abertura e sob o que permite o novo. Considero os temas do corpo, da percepção, do tempo e do ato de criação do novo conterem questões de importância atual, e espero que futuras descobertas e experiências possam coincidir na sensação que estas palavras transmitem. A sua significação não pretende ser conclusiva nem determinar pensamentos fechados.

O tempo e a mudança, a dicotomia mente / corpo, uma nova forma de movimento e de pensar o corpo, o ato de criar, e a transcendência de tudo isso para o encontro com um todo unificado. A maior questão aqui presente é o facto de ser necessário abrir a percepção para a mudança. Como? Através do corpo e da sua capacidade de criar e de obter uma maior abertura, pelo resgate do sensível.

 (Tudo começou com um movimento de procura. Uma procura em que uma força maior empurrava em direção ao novo, através do próprio movimento que não se explica. Um movimento nem de lá nem de cá. Então, de onde? A realidade transformou-se, reconheço, e não me reconhecia mais. As sensações de aceleração do corpo, a perda das noções do tempo e do espaço e das crenças maiores. Era o poder de transformação. O aprender e a atenção. O encontro. E deixei-me levar pelo movimento e pelas emoções, a descoberta. Fui. Há experiências sensoriais descritas como inexplicáveis. Indo, não há mais o voltar atrás, nem tempos perdidos. Há coisas desconhecidas que preferi viver através da minha própria criação. Fui e Vim. Encontro-me tão bem aqui. Aqui, onde abracei o desconhecido.)

Noções de tempo e mudança sempre foram temas de discussão, para quem vive num corpo, num intelecto e numa sociedade. Normalmente no nosso dia a dia, nós nos referimos a questões e pensamentos sobre o tempo e a mudança em ligação a outros conceitos como o espaço, o movimento, o corpo e a percepção. Concluímos de imediato que o domínio das ideias e do pensamento está em ligação direta com o domínio do corpo, pois todos estes termos nos remetem à interação de processos entre o corpo e a mente. Vivemos assim numa dualidade que muitas vezes entra em sintonia com a realidade em que estamos inseridos. Dessa realidade, surgem exemplos como a melancolia, a nostalgia, solidão, tristeza ou amor, que são indícios de um sentimento maior, presente numa individualidade atual que se auto-contempla e não pode mais acreditar na ilusão da sua imagem. Na tentativa de recuperar a unidade do sentido, são as experiências temporais e sensórias que nos permitem re-significar o que se encontra sem sentido, ou melhor, re-significar o que é sentido.

No entanto, no esforço para compreender a nossa natureza como indivíduos com consciência, temos determinado repetidamente o domínio do corpo em oposição ao das ideias. Procuramos constantemente um significado objetivo da realidade. Contudo, num mundo em constante transformação, definições obstinadas como esta podem ser seriamente

limitativas e reduzir a consciência, quando tomadas como verdades incondicionais. Mas algumas descobertas começam a demonstrar que, na natureza, existe um movimento de energia macrocósmico que inevitavelmente nos une num só. Uma só substância em constante transformação.

Então, como pensar o corpo?

A nossa condição humana encontra-se numa matéria objetiva, mas isso por si só não alcança o sentido, a não ser aliado a algo imaterial, subjetivo que não podemos tocar nem cheirar, mas podemos sentir e ter igualmente uma percepção real. Logo, é importante despertar a atenção para o pensar e o fazer, para o abstrato e o concreto. Bem como para o que acontece entre os dois, para a energia que oscila entre os dois polos, determinando o nosso pensamento para a mesma energia oculta em toda a parte. Cada um de nós recebe, organiza e interpreta toda a informação sensória de uma forma individual e assim cria uma construção mental, uma imagem ou um conceito de um objeto ou de uma situação específica. Este processo de abstração do chamado “mundo da matéria” constitui a percepção. Esta não é um procedimento predeterminado e também não é puramente passivo, pois a percepção vive de diferenças. Somos diferenças em constante movimento.

 Para vivermos num modelo de realidade onde uma nova ordem de pensamento que abraça todos os tipos de expressão e abre espaço para múltiplas interpretações ser inteligível, só será possível se nos libertarmos do quadro espaço/temporal que nos torna humanos, pois não apenas somos condicionados pelos nossos ideais históricos e culturais, assim como pela nossa própria fisicalidade. Estando muitas vezes impedidos de considerar a realidade deste modo mais aberto, podemos sempre ousar a tentativa de derrubar a nossa insaciável vontade de determinar “o que é”, estabelecendo algo também aberto a favor da relatividade. E isso pode dar acesso à realidade como um processo de se tornar, não procurando o “eu sou”, mas compreendendo o eu me torno, constantemente.

A consciência nos fornece a habilidade de responder o que nós percebemos, e também de considerar o que se esconde além da representação, além da percepção.

Sendo assim e sentindo que há uma fonte inesgotável para o ser humano, para que ele varie de resposta a determinadas situações e para que invente novos horizontes, podemos deixar o presente em aberto?

 Pois, o processo de evolução criadora é uma mudança permanente. A vida consiste em mudança. O possível ultrapassa o real e o impossível é real; o real é pura mudança que surpreende e traz o novo, constantemente. Para podermos perceber a mudança, temos que abrir a percepção, temos que intuir o movimento contínuo da mudança. O movimento é infinitamente desdobrável, é a essência.

Nós estamos acostumados a ver a mudança em separações de instantes, pois, a inteligência ocorre e procede assim, é uma espécie de modelo institucionalizado, logo, perdemos a apreensão da realidade que é, na sua essência, mudança – Vida – movimento crescente e contínuo de mudança.

Prestar atenção à vida é desligar-se dos automatismos, é abrir e alargar a percepção para a mudança. E assim chegar a novos estágios de percepção, atingindo o tempo liberto do movimento. É bom louvar o novo, o imprevisível, a invenção e a liberdade.

Criar, criar em forma de ação humana interior – exterior,  sucessora de uma ação exterior-interior, que só existe em função da anterior. Ligações recíprocas e infinitamente dependentes. Aberto todo este caminho, qualquer ação flui sem quebras, tanto para dentro como para fora, face a um estado de intuição pleno de lucidez, capaz de sintetizar o que é interior, que não se encontra estático, mas em circulação infinita, num momento único, presente. A singularidade de um corpo reside no espaço do meio que sustenta em vibração a totalidade. Decomposto um corpo, espalham-se os particulares que juntos faziam a forma, pela matéria que lhe era exterior. Re-articulados uns com os outros, fazem-se outras formas que se renovam infinitamente neste processo de continuidade de vida, de criação.

E um corpo assim, é um corpo criador, capaz de atingir esse estado. É o ser humano elevado ao seu mais alto potencial, no seu estado de corpo criador que cai numa distração, num grande vazio, cheio de novidade. Ele liberta-se e liberta o novo. Gera mudança e flui na corrente do movimento vida. 

Toda a vida é uma corrente ininterrupta – a vida vem da vida. 

Se o corpo, em si mesmo, não é senão um centro de ação comum dos sentidos, se nós possuímos o domínio dos nossos sentidos, se os podemos fazer agir à vontade, se os podemos centrar em comunidade, então não depende senão de nós darmos a nós próprios o corpo que queremos. Se os nossos sentidos não são senão modificações do órgão pensante – do elemento absoluto – então podemos também, pela dominação deste elemento, modificar e dirigir, como nos agradar, os nossos sentidos. Podemos tomar em nosso poder o nosso corpo e a nossa alma. O corpo é o instrumento para a formação e modificação do mundo. A modificação dele próprio, do nosso instrumento, é a modificação do mundo.

Através destas noções, podemos nos mover além dos limites da percepção e apreender a realidade como um todo dinâmico, em que fazemos parte. Queremos constantemente determinar e estabelecer o que somos, contudo, durante a nossa vida, estamos sempre a reinventarmo-nos devido às mudanças dentro e fora de nós. O eu sou, e o eu me torno. Não somos um único eu, desde que nos modificamos a cada situação. As transformações individuais de cada ser são possíveis caminhos para uma permanente produção de significados flexíveis. Na verdade, a vida oferece e expõe vários caminhos para o acesso a esta abertura, e o nosso corpo é apenas um fluxo cultivado.

Gabriela Gonçalves

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